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A carta

por André Luís Mansur



Venho por meio desta informar que houve uma época em que as pessoas se sentavam e escreviam cartas. Isso foi bem antes do advento do e-mail. As cartas eram escritas numa folha de papel com uma caneta ou um pequeno toco de madeira chamado lápis, cuja ponta precisava ser afinada constantemente pelo apontador, o que gerava muita sujeira. A ponta também quebrava com frequência.


Escrita a carta, cuja maior dificuldade era a ausência do botão "delete" (as letras eram eliminadas através de riscos ou da borracha, que também provocava muita sujeira), era preciso enviá-la ao destinatário, o que se constituía numa operação extremamente trabalhosa, já que a carta não podia ser enviada imediatamente, como acontece com o e-mail. A pessoa precisava dobrá-la cuidadosamente, colocá-la dentro de um envelope, fechar o envelope (com cola ou, em casos mais raros, saliva), escrever os nomes e endereços do remetente e do destinatário e levá-la até uma agência de correio.


O pior, no entanto, ainda estava por vir. Enquanto o envio de um e-mail é praticamente gratuito, o remetente, para mandar a carta, precisava pagar por um selo, que era colado à carta, antes do seu envio. Além disso, enquanto o e-mail custa o mesmo preço, ainda que seja mandado para qualquer parte do planeta, o selo da carta ficava mais caro à medida em que o destinatário morasse mais longe.


Finda esta parte da operação, agora era aguardar que a carta chegasse ao seu destinatário, o que, dependendo do local, poderia levar alguns dias. Havia também o risco de extravio, por isso, em certos casos, o remetente optava por registrar a carta, pagando um pouco mais.


É bom lembrar que muitas vezes, em algum momento desta operação, o remetente enfrentava algum tipo de fila.


Quando o destinatário recebesse a carta, precisava abrir o envelope com cuidado, para não rasgar a carta e lê-la, o que, muitas vezes, era uma tarefa impossível devido à péssima caligrafia do remetente. Na época, existiam os cadernos de caligrafia, que tinham como objetivo tornar legíveis, e também mais bonitas, as letras de quem os usasse.


Caso o destinatário quisesse responder a carta, todo o processo iria se repetir. Cartas de namorados costumavam ser enviadas com algum tipo de perfume e acúmulos de cartas comprometedoras já arruinaram a vida de muita gente de reputação ilibada até então.


Em breve, falarei sobre a máquina de escrever, que, entre outras funções, também era usada para escrever a carta.


Sem mais, despeço-me atenciosamente.


André Luis Mansur é jornalista e escritor, autor de 11 livros, entre eles “O Velho Oeste Carioca”, “Marechal Hermes - a história de um bairro” (Edital), “A rebelião dos sinais” (Edital) e “Fragmentos do Rio Antigo” (Edital), este com Ronaldo Morais. Trabalhou em jornais como “Tribuna da Imprensa”, “Jornal do Brasil” e “O Globo”, onde publicou mais de cem críticas literárias.

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Volta Redonda, RJ, Brasil

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