• Nós Educação

A leitura literária e a literatura infantil em tempos de pandemia

Por Antonella Catinari


Muito já se tem escrito e dito por aí,— desde cientistas renomados das mais diversas áreas até leigos em psicologia, ciências sociais e seus desdobramentos como eu—, que nossos hábitos, costumes, nossa forma de nos relacionarmos não será mais a mesma após a pandemia. Como isso se dará é uma incógnita, por mais técnicas que sejam as antevisões. Creio na teoria do caos e acho mesmo que o bater de asas de um morcego na China pode afetar nossa vida aqui no Brasil.

Em alguns aspectos de nossa vida cultural, no entanto, é possível perceber algumas tendências e caminhos que levarão a uma modificação na forma de consumo de determinados bens culturais. Dentre esses, o modo de se relacionar com a leitura literária, sobretudo no que se refere à literatura para crianças e jovens.


Há coisa de dois a três anos, começaram a surgir os chamados clubes ou rodas de leitura, em que os participantes, seja com um dinamizador ou não, leem de forma compartilhada contos, romances, poesia, entre outros gêneros, e debatem os textos lidos. Nos últimos meses, tornou-se tão frequente esse protocolo de leitura, que foram feitas várias reportagens sobre o assunto, inclusive uma muito boa no (ótimo e recém-extinto) programa Globonews Literatura. Esse modo de se ler,ao ganhar peso, vem suplantando, para grande parte dos leitores, o hábito da leitura solitária e silenciosa.

Acredito que deva haver uma série de razões para essa mudança, mas uma me chama a atenção: o fato de que, num mundo em que somos avassalados por informações nos mais diferentes meios de comunicação, em que o tempo se torna mais veloz, em que é necessário responder às demandas de comunicação cada vez mais rapidamente e, na maioria das vezes, de forma superficial, a capacidade de concentração, o tal aclamado foco, vem perdendo a vez. Torna-se uma tarefa por vezes árdua adentrar, por exemplo, num romance, principalmente os da categoria dos “clássicos” (conceito bastante flexível, mas que não discutirei aqui). A leitura coletiva, muitas vezes feita em voz alta, além de ser prazerosa pela troca entre os leitores, vem “ajudar” a vencer a dispersão, uma vez que há um compromisso de que a leitura tenha sido realmente efetuada pelos membros do grupo.

Com o isolamento a que estamos submetidos, esse movimento ganhou as redes sociais e é possível perceber o crescimento de grupos de leitura online que empregam os diferentes aplicativos disponíveis na web. Para vencer a solidão imposta pela quarentena, sentimos necessidade de estreitar laços mesmo que virtuais. E a leitura literária funciona como um delicioso antídoto contra essa sensação. Muito provavelmente essas rodas atravessarão este momento e seguirão com força no mundo pós-Covid. Essa nova oralidade da leitura literária (de textos escritos) retoma hábitos que datam da Idade Média, em que nobres escreviam cantigas para serem lidas em público, e, posteriormente, nos séculos XVII e XVIII, tanto nas cortes como em casas mais humildes, nas quais os livros eram lidos em voz alta para familiares e amigos, e ainda nas fábricas de charutos em Cuba no século XIX.

É sabido que a leitura silenciosa também se originou e desenvolveu nos monastérios desde o século IV e ganhou destaque no chamado mundo moderno, com a ascensão da burguesia e seu modo privado de se relacionar, em que predominava o núcleo familiar doméstico. Até finais do século passado, podia-se confirmar o prestígio da leitura silenciosa bastando folhear, por exemplo, um livro didático de Português, cujos inícios de seção ou capítulo sempre principiavam com uma “leitura silenciosa”. A chamada “leitura em voz alta” servia , na maioria das vezes, para o professor aferir a competências de leitura oral dos alunos: ritmo, entonação, respeito à pontuação e destreza vocabular.

(Continua após a imagem)

(Crédito da imagem: https://www.swissinfo.ch/por/multimedia/o-ticino-rural--no-passado/844418 )


De forma paralela à formação dos grupos e rodas de leitura, em relação, sobretudo, à literatura infantil, foram surgindo com cada vez mais destaque e em número crescente grupos de contadores de histórias ou contadores individuais. Apesar de boa parte desses contadores se servir de contos populares sem apoio direto de textos escritos, hoje temos, por outro lado, em grande parte das salas de leitura ou bibliotecas escolares, professores ou demais mediadores que fazem com que as crianças ouçam as histórias lidas ou que promovem a leitura compartilhada.


Com o advento da pandemia, passou-se a contar histórias para os leitores mirins nas mais diferentes plataformas e/ou aplicativos via internet. É de chamar a atenção, numa breve circulada pelo Facebook, pelo Instagram ou em sites destinados a pais e crianças, a presença cada vez mais frequente de contadores e de leitores de livros online ou em vídeos gravados. Alguns escritores e ilustradores vêm se esmerando na produção desses vídeos, de forma a chamar a atenção de seu público e de conquistar leitores para seus livros.

Ao refletir sobre esse tema e observar a mudança das práticas leitoras, principalmente entre os mais jovens, vejo que será forçosa na educação presencial, no retorno às salas de aula, a atenção a essa nem tão nova modalidade de contato com o texto literário. Retomar a leitura silenciosa,— importante para a formação do leitor na medida que o torna independente no diálogo com esse Outro, substanciado no texto —, provavelmente irá requerer de quem media esse contato com a literatura um trabalho delicado e planejado com todo cuidado e fundamentação a fim de que desperte o interesse dos leitores que estão neste momento sendo expostos a recursos imagéticos e oralizados no processo de proficiência na leitura literária.


Essas são suposições, baseadas na observação do que vem se delineando, mas, como a vida tem demonstrado, não sabemos o que realmente nos espera na próxima esquina ou na próxima página.


Até breve!

Antonella Flavia Catinari é professora, escritora e consultora pedagógica

Volta Redonda, RJ, Brasil

©2019 por Nós Educação.