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ANNA GONZAGA E A FAZENDA INHOAÍBA

por André Luís Mansur


O bairro de Inhoaíba, localizado entre Campo Grande e Cosmos, na zona oeste do Rio de Janeiro tem sua história ligada a uma pessoa: Anna Gonzaga. Filha mais nova do casal Luis Antônio Gonzaga Suzano e Anna Joaquina de Soledade Gonzaga, donos da Fazenda Inhoaíba. Ela nasceu em 22 de novembro de 1861, mas em outra fazenda da família, a do Lameirão Pequeno, em Campo Grande (hoje nome de uma estrada). Criada nessa fazenda, entre muitos passeios a cavalo com o pai, Anna Gonzaga só sairia daquele paraíso de muito verde quando o pai a matriculou em um colégio interno no bairro de São Francisco Xavier, na zona norte da cidade, para que ela tivesse uma educação exemplar.

Anna Gonzaga, no entanto, teve uma vida de muitas perdas familiares. Aos 18 meses, perdeu a mãe e, logo depois, o irmão José. Em 1901, seu pai também faleceu e, pouco tempo depois, seu outro irmão, Luiz, e a filha pequena dele, Luiza. Sozinha, já que nem casou nem teria filhos, Anna Gonzaga manteve as fazendas de Inhoaíba e do Lameirão Pequeno do jeito que os pais queriam. Até mesmo quando o irmão e a sobrinha morreram, ela doou para a viúva, mesmo sem ter feito ainda o inventário do pai, uma boa parte da Fazenda Inhoaíba, mas depois a comprou, apenas para manter a fazenda com sua área integral. Mudou-se para uma casa simples numa vila do bairro da Tijuca e passou a se interessar pela Religião Metodista, frequentando a Igreja Metodista de Vila Isabel.

Em 1927, o reverendo Osório de Castro Caire apresentou a Anna Gonzaga à missionária norte-americana Layona Glen, que já estava no Brasil havia um bom tempo com a intenção de criar um orfanato, mas não conseguia apoio. O reverendo a aconselhou que não pedisse nada, apenas mostrasse o projeto a Anna Gonzaga. E foi o que ela fez, não sem antes se impressionar com a simplicidade em que vivia a rica fazendeira, numa casa modesta, mas organizada com muito bom gosto. Layona foi mostrando à Anna Gonzaga fotos e registros dos orfanatos mantidos pela Igreja Metodista nos Estados Unidos, despertando interesse na fazendeira, que fazia muitas perguntas.

Passado um tempo, quando a missionária acreditou que conseguiria algum apoio, travou-se o seguinte diálogo, segundo está escrito no livro que Layona escreveu em homenagem à fazendeira:


“A senhora conhece minha fazenda em Inhoaíba?” A visitante respondeu que conhecia apenas de vista.– “Pois bem” – continuou ela – “não acha que seria um bom lugar para um orfanato?”


– “Sem dúvida, Dona Anna, seria muito apropriada mas não podemos nem sonhar com uma fazenda tão vasta e de preço tão elevado”.


– “Não estou falando de preço” – insistiu Dona Anna – estou me referindo à localização”.


– “Na verdade, Dona Anna, o lugar seria ideal mas nós nem de leve podemos considerar tal coisa, por estar muito além de nossas possibilidades”.


– “Pois está muito bem” – continuou Anna com naturalidade – “Está muito bem! Vou doar a fazenda de Inhoaíba para o Orfanato”.

(Dona Anna da Conceição Gonzaga – um tributo de homenagem de sua amiga, de Layona Glenn)


A escritura de doação foi assinada em 13 de dezembro de 1930. A própria Anna Gonzaga cuidou da imensa burocracia e pagou todos os impostos. Além do orfanato, foi construída também uma Casa de Oração, que mais tarde seria transformada em igreja.

O orfanato foi inaugurado em 1.º de maio de 1932, mas a responsável para que todo aquele trabalho fosse realizado não pôde presenciar sua inauguração. Na noite de 14 de março, Anna Gonzaga estava sozinha em casa, como sempre, e levou um tombo, quebrando uma das pernas. Não conseguindo se levantar, começou a gritar e a bater com o sapato no chão, até que uma vizinha ouviu e foi ajudá-la. Não havia telefone por perto e só com muito esforço conseguiram avisar o Posto de Assistência, que só chegou às 3 horas da madrugada. Não havia médico de plantão e Anna Gonzaga ficou aguardando atendimento por muitas horas. Só de manhã, quando alguém foi a Inhoaíba e deram a notícia, providências foram tomadas para que ela fosse internada no Hospital Evangélico, onde faleceu depois de 15 dias, no dia 1º de abril, principalmente pelo longo tempo que ficou sem atendimento. Anna Gonzaga foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, no jazigo de seu pai.

Sob o argumento de que ela não gostaria que adiassem a inauguração do orfanato, a data foi mantida e, mesmo com muita tristeza, ele foi inaugurado no dia 1º de maio. Em homenagem a ela, o orfanato recebeu o seu nome.

Anna Gonzaga já havia doado uma faixa de terra para a construção da estação de trem local, com a condição de que tivesse o mesmo no me de sua fazenda, e também doaria a Fazenda do Lameirão Pequeno para a Igreja Metodista, que está lá até hoje. Em Inhoaíba, tanto o orfanato quanto a igreja fizeram de seu nome a referência local até hoje, incluindo várias atividades ligadas à cultura e à ecologia no bairro. Seu nome também está no Centro Municipal de Saúde de Inhoaíba.

Anna Gonzaga não gostava de tirar fotos, dizia que o orfanato seria o seu retrato. E, sem dúvida, seu desejo foi mais do que atendido.

Instituto Metodista Ana Gonzaga - provavelmente anos 70 - Foto de Susana Huguenin - IMAG Pesquisa da imagem: Guaraci Rosa


André Luis Mansur é escritor e jornalista.


Volta Redonda, RJ, Brasil

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