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Carolina escritora

por Igor Gonçalves


Quando a menina sabida e observadora cresceu, percebeu que aquela cidadezinha não era mais lugar para ela. Era preciso ultrapassar os limites de si, correr para onde o vento aponta a planta dos pés enquanto corre rumo ao destino de todas as coisas.

Carolina. Assim era seu nome. Carolina Maria de Jesus, menina perguntadeira. Lia o mundo com a mesma curiosidade de um recém-nascido. Lia os livros com a ânsia de quem precisa respirar; com a necessidade de quem precisa armazenar alimento para os dias de seca.

Em São Paulo começa a trabalhar como doméstica. O pensamento colonial sempre teve a preocupação de reservar às mulheres pretas e periféricas os trabalhos nas casas de família, atividade que sempre exerceram com zelo e maestria. Mas essas mulheres nunca aceitaram pacificamente esse destino costurado para elas sem consulta prévia.

São os ecos das Marias Firminas, Luizas e Dandaras que não cessam seus gritos pela liberdade e pelo direito. Do Canindé, Carolina escancarava para mundo a complexidade de quem mora na favela. Não aceitou o destino de favelada. Tampouco pode ser resumida como tal.

Carolina perseguiu o destino de escritora. Arrancou as mordaças do passado de escravidão. Sabia que pelas palavras é possível recontar a vida. A palavra nos ajuda a nos colocarmos no mundo. Carolina queria escrever sua própria história. Sem tutores, sem observadores.

O pouco tempo em que frequentara o ensino formal não fora empecilho para que Carolina aprendesse o compromisso com a força das palavras. Na biblioteca da casa em que trabalhava, antes de ir para o Canindé, aprendera na prática o que era o Letramento Literário. Nos dias de folga, preferia se entregar à leitura a aproveitar o dia lá fora.

Conceber Carolina como uma escritora amadora é no mínimo leviano. Resumi-la como uma escritora favelada é mais perigoso ainda. Ela é autora de uma obra vasta e sólida. Destacamos entre suas produções: “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome” e “Provérbios”, sem levarmos em consideração os livros publicados postumamente.

A escritora não precisou frequentar os bancos universitários para saber que a literatura é a arte da palavra. É pela palavra literária que recontamos nosso cotidiano. Carolina sabia que o grande tema da literatura era o ser humano, com toda a sua carga de alegrias e dores, certezas e questionamentos.

“Quarto de despejo” é, sem dúvida, a obra mais conhecida da autora. É nas páginas da obra que autora exprime todas as reflexões acerca da vida que se leva no Canindé. “O pobre não repousa”, ela escreve em 16 de junho de 1955. Escreve isso porque, mesmo indisposta, precisa sair para catar papel. É preciso colocar comida na mesa.

Ao fazer esse registro, Carolina não escreve só a sua experiência. Fala, na verdade, por um grupo, fala pelo pobres, pelos favelados. Lembro de algumas aulas com alunos do 7º ano na escola pública. Ao lermos “Quarto de Despejo”, havia sempre alguém para dizer “minha vizinha é assim”; “isso já aconteceu comigo”.

A leitura aviva as memórias das manhãs frias e chuvosas em que meu pai tinha que sair para trabalhar, mesmo com tosse ou febre. Trabalharia o dia inteiro ao relento, carregando e descarregando caminhões com terra, areia e tijolos. Era preciso colocar comida na mesa. Carolina traduz muito bem esse drama. É a literatura apresentando-se como o grande espelho de seus leitores. Escrevivência, como diria Conceição Evaristo.

Em seu diário a autora traz pequenos retratos não só do seu dia a dia, mas de toda a favela. Escreve como denúncia. Não compactua com a realidade a sua volta. Retrata a fome a ponto de metaforiza-la: “a fome é amarela”.

Os discursos sobre raça e gênero também ondulam pelas páginas do livro. Em 17 de julho de 1955, Carolina escreve sobre o orgulho de não depender de marido para viver e sustentar os filhos. Acerca das vizinhas casadas, ela fala: “Elas aludem que eu não sou casada, mas eu sou mais feliz que elas. Elas tem marido mas são obrigadas a pedir esmola”.

Ao tocar nesse assunto, Carolina parece chamar atenção para a necessidade de se questionar a importância de se manter um casamento. Esse era uma dos fatos pelo quais não queria se casar. Não queria se prender a ninguém, muito menos ser agredida.

Carolina é audaciosa diante do sistema machista e racista. É uma mulher preta, com pouca escolaridade, moradora de favela e com três filhos para criar. Mesmo com a vida dura, ela não tem dúvidas de que é uma escritora.

Na rua, enquanto cata papel é confundida com uma mendiga. Na favela é chamada de negra fedida. As leituras estereotipadas transparecem também na leitura que um vizinho faz da autora, quando chega a lhe dizer “Nunca vi uma preta gostar tanto de livro como você” (registro de 23 de julho de 1955).

Ainda hoje somos surpreendidos por falas como essa, fruto de nosso passado de escravização. Fruto do racismo estrutural que lateja nas entranhas de nossa sociedade.

Carolina abre as portas do quarto de despejo e mostra a vida da população negra e favelada. Mas também revela as questões que permeiam as mulheres e os homens de todos os tempos e espaços. Confirma o que seu conterrâneo declarara em “Grande Sertão Veredas”: “viver é muito perigoso”.

Ela também não romantiza o lugar do escritor. Não esconde que seu desejo é escrever para vender. Em 27 de julho de 1955 escreve que seu desejo era ganhar dinheiro para comprar um terreno e sair da favela. Escreve impulsionada pela necessidade da alma e do corpo.

Escreve porque precisa falar dos seus momentos de felicidade. “De manhã eu sou sempre alegre”, registra em 20 de julho de 1955. Há momentos em que suas feridas são aliviadas. A escrita é uma forma de cura para Carolina.

Escreve porque não aceita as mordaças da miséria. Escreve para suportar “as contingências da vida”, como certa vez registrara em seu diário. Escreve porque pela palavra podemos nos libertar, podemos dizer, podemos gritar.

Escreve porque pela palavra abrimos estradas impossíveis de serem fechadas novamente. Outra coisa não queremos senão isso, liberdade para traçarmos nosso próprio destino.

Igor Gonçalves é escritor, contador de histórias e professor de Literatura, especialista em Formação de Leitores.


Crédito da imagem: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Volta Redonda, RJ, Brasil

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