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Clubes de Leitura: vamos nessa?

Atualizado: há 7 dias

(parte I: onde se conta um pouquinho sobre os clubes)


por Antonella Catinari


Se você gosta de ler, o tema de hoje interessa-lhe. Se não gosta, também. Trouxe para a reflexão de hoje um assunto que anda na crista da onda: os clubes de leitura. Mas o que é exatamente um clube de leitura? Há inúmeros formatos, mas posso resumir dizendo que um tradicional clube de leitura não é mais do que um conjunto de pessoas que se juntam periodicamente para falar de um determinado livro, escolhido previamente para ser lido por todos os membros.

Um clube de leitura, como foi dito, pode se organizar das mais distintas formas: em alguns, um grupo de pessoas se reúne para discutir um mesmo livro; em outros, os participantes leem diferentes livros de uma mesma lista, compartilham suas experiências e alternam as leituras; e há até aqueles em que se escolhe um tema e as pessoas falam dos livros que leram com aquela temática. O ponto central é se reunir para conversar sobre livros.


É interessante, porém, conhecer suas origens e pensar que a leitura, —prática central desse tipo de clubes — se originou a partir de reais necessidades de nossos ancestrais. Desde que o mundo é mundo, e mais especificamente, desde que o homem é homem (e a mulher é mulher, por supuesto [1], que gostamos de sentar para ouvir causos, aventuras, ancestralmente de caçadas e trovões e, mais adiante na História, de viagens interplanetárias e grandes crimes. Já no princípio, nossa espécie sentiu necessidade de registrar o que acontecia, o que era relatado, seja oralmente, de geração em geração, seja materialmente, no começo com pinturas rupestres. Nos dois tipos de registros, podemos perceber, como fagulha disparadora, a preocupação concomitante, por parte de escritores/narradores e leitores/ouvintes, de preservar o passado e de se lançar no futuro. E, a partir dessas conquistas, nos foi dada a capacidade de ler o mundo.


A leitura e suas práticas foram se transformando à medida que surgiam novos suportes de acomodação da escrita. Suportes que se sucedem desde as tabuinhas com escrita cuneiforme da antiga Mesopotâmia até a escrita virtual das telas de smart phones, passando por rolos de papiros, códices, escritos em pedra, escritos em couro, entre outros. Essas variedades de meios de comunicação escrita contribuíram decisivamente para moldar a prática da leitura em cada época específica. E a invenção da imprensa é fator decisivo para nosso atual modo de ler, difundindo e tornando pouco a pouco popular um de nossos principais suportes de leitura ainda no século XXI: o livro.


Nem todos os participantes de clubes de leitura de hoje sabem, mas os organizados atualmente têm seus ancestrais no século XVIII, quando grupos puritanos americanos se reuniam para estudar a Bíblia, e aristocratas e burgueses franceses se encontravam em palacetes para ler livros e discutir as novidades intelectuais. Essas leituras de salão francesas tiveram um papel essencial para a divulgação das ideias Iluministas e dos ideais que levaram à Revolução Francesa, o que pode ser visto nessa pintura de Lemonnier (1743-1824), que retrata uma reunião, com cerca de mais de quarenta pessoas, entre elas Montesquieu e Diderot, em que é lida uma peça de Voltaire.

O elo que une os encontros de estudos bíblicos e os salões do século XVIII aos atuais clubes de leitura encontra-se no ano de 1868, quando jornalistas mulheres foram impedidas de participar de um evento literário nos EUA por causa de seu gênero. Uma das jornalistas, então, funda o Sorosis, um clube de mulheres (women's club) dedicado a estudos e leituras. Outros grupos surgiram no rastro da primeira iniciativa e multiplicaram-se as associações femininas na metade do século XIX nos EUA, como o Ladies' Literary Club of Ypsilanti (Michigan), de 1878, que se mantém até hoje. E, a partir dessas reuniões, surgiram as atuais bibliotecas comunitárias, e pesquisas na área da Biblioteconomia estimam que 75% das bibliotecas norte-americanas tenham sua existência creditada aos clubes de leitura.


Não existem dados gerais sobre clubes de leitura no Brasil. Nos EUA, porém, estima-se que 5 milhões de pessoas integrem esses grupos. E mais: pesquisa de 2015 da revista BookBrowse mostra que 57% das pessoas com mais de 25 anos que leem pelo menos um livro por mês participam de no mínimo um clube de leitura. [2]


Podemos perceber, no entanto, que essa tendência de formar clubes de leitura veio crescendo a olhos vistos em nosso país. Inicialmente de forma íntima e, logo depois, de forma mais pública em livrarias, bibliotecas, universidades, coletivos políticos, enfim nos mais diferentes contextos. Agora em que nos encontramos em meio à pandemia, isolados socialmente, vemos pulular clubes de leitura nos mais diferentes suportes e aplicativos da web.


Quando perguntados sobre as vantagens de um clube de leitura, é praticamente consensual a fala de que, em grupo, há diferentes habilidades em jogo, em que é possível se beneficiar ao acompanhar que estratégia o outro usa para ler o texto, que aspectos do texto chamam a atenção de um leitor e de outro (s) não. Ler coletivamente, segundo uma série de depoimentos, amplia a construção de sentido do texto pela troca com o outro. Falar sobre o que se leu fortalece o processo de memorização e serve como incentivo para seguir na leitura. Além disso, as reuniões periódicas auxiliam aqueles que querem manter o hábito da leitura ou os que desejam adquiri-lo. Há aqueles que nunca tiveram o costume de ler, mas sempre quiseram ter e admiram quem tem. E essas pessoas, finalmente, encontram a chave para sentir o gosto da leitura e ficar com sabor de “quero mais”.


E como entrar para um clube? Será que posso criar meu próprio clube? Aguarde até semana que vem quando tratarei de responder a essas perguntas. E viva a curiosidade!

[1] Logicamente; de modo óbvio. [2] Fonte: Folha de São Paulo, de 13/08/2017.

Antonella Catinari é professora, escritora e consultora pedagógica.

Ilustração: Leitura da tragedia "O órfão da China" de Voltaire no salão de Madame Geoffrin, 1812, óleo sobre lenço, 129,5 x 196 cm

Volta Redonda, RJ, Brasil

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