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Exaltação aos sebos

Por André Luis Mansur

Para mim, não há lugar onde o livro se sinta mais à vontade do que no sebo. Em bienais e livrarias de ponta, por exemplo, com todo o ambiente asséptico e o burburinho em volta, os livros me lembram aquelas pessoas que precisam usar a "roupa de domingo”, desconfortáveis e constrangidas. Já nos sebos não, nos sebos eles estão à vontade, de chinelo de dedo, bermuda frouxa e camiseta surrada. Mais felizes do que pinto no lixo. Aqui no Rio de Janeiro, principalmente no centro da cidade, o número de sebos cresceu muito nos últimos anos. O principal atrativo para a maior procura, sem dúvida, é a grana. Com o preço dos livros novos sempre teimando em não cair, as pechinchas nos sebos se tornam irresistíveis, principalmente para os estudantes universitários. É possível, com um pouco de sorte, comprar livros de capa dura e em bom estado por alguns reais.

O bom sebo não pode ter muita luz, tem que ficar um pouco na penumbra. Também não pode ser muito limpo, bastando um espanadorzinho de vez em quando, para não sufocar os alérgicos. Também não deve ser muito espaçoso, as pilhas de livros precisam formar corredores e esquinas estreitos, fazendo com que o leitor se sinta literalmente (ou literariamente) cercado por livros. Um detalhe imprescindível: o dono do sebo jamais pode se aproximar do visitante e perguntar se ele “deseja alguma coisa, senhor?”, como fazem os vendedores de lojas. O visitante precisa ficar à vontade, folhear o que quiser e mesmo que saia sem comprar nada não deve ser incomodado. Afinal, o sebo também cumpre o seu papel de biblioteca comunitária.

As seções não devem ser muito organizadas, pois um dos principais atrativos do sebo é o elemento-surpresa, é encontrar aquilo que jamais se esperaria naquela prateleira. Eu mesmo achei a biografia de Machado de Assis escrita por Lúcia Miguel Pereira numa prateleira que nada tinha a ver com literatura brasileira. Com capa em bom estado e a seis reais. Revistas antigas são também um atrativo à parte, assim como coleções que já saíram de catálogo. O grande risco quando começamos a folheá-las é perder a noção da hora, pois quando o fator memória ocupa o seu espaço no sebo acaba qualquer relação com a balbúrdia lá fora. Sim, o sebo também é uma máquina do tempo.

Alguns sebos também misturam o sebo com café, restaurante, cervejas artesanais e também apresentações musicais de bandas de jazz e grupos de chorinho e samba. Para terminar, um conselho: prefiram sempre os sebos que tenham gatos de estimação. Eles são os melhores amigos dos “ratos de sebo” e geralmente estão em cima do livro que queremos.


André Luis Mansur é jornalista e escritor, autor de 11 livros, entre eles “O Velho Oeste Carioca”, “Marechal Hermes - a história de um bairro” (Edital), “A rebelião dos sinais” (Edital) e “Fragmentos do Rio Antigo” (Edital), este com Ronaldo Morais. Trabalhou em jornais como “Tribuna da Imprensa”, “Jornal do Brasil” e “O Globo”, onde publicou mais de cem críticas literárias.


Foto da Belle Époque Discos e Livros, no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro, e do seu gato Mingau.


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Volta Redonda, RJ, Brasil

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