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Ler é preciso

por Igor Gonçalves


Se pudéssemos fazer um breve momento de reflexão sobre o lugar da leitura e da escrita nas diversas sociedades espalhadas pelo globo terrestre, não seria difícil percebermos a hegemonia de tais práticas nas relações sociais. As sociedades grafocêntricas dividem os sujeitos entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem ler. Aos alfabetizados, é permitido o acesso a uma maior parcela de produtos pertencentes à cultura dita legítima. Os que não dominam o sistema de escrita, por sua vez, estão destinados a viver, muitas vezes, à margem desses bens culturais.

Gustavo Bernardo Krause, escritor e professor de Teoria da Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, chama a atenção para o fato de que “ler é preciso assim como ser livre é preciso” (KRAUSE, 2002), título de sua conferência no Seminário do I Salão do Livro para Crianças e Jovens da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Para Gustavo, o ato de ler mostra-se como a “metonímia da nossa vontade maior de tentar entender o mundo” (KRAUSE, 2002, p. 132). Por isso estamos condenados à leitura, já que o mundo nada mais é do que aquilo que lemos e escrevemos nele a cada gesto social, ou seja, lemos porque precisamos entender o mundo que pulsa a nossa volta e, por consequência, compreendermos a nós mesmos.

É possível, a partir dessas ideias, chegarmos a alguns pontos que nos levem a certas compreensões acerca da leitura. A primeira, e talvez essencial, é a de que ler constitui-se como um ato social por meio do qual, cruzando os olhos com as palavras impressas no papel ou iluminadas na tela do celular estamos, mesmo que inconscientemente, participando de uma prática social e dialogando com outro indivíduo. Ler é, assim, um constante diálogo com o outro que, ao escrever, busca realizar sua necessidade de dizer alguma coisa ao mundo.

Krause acredita que “todo texto que merece ser lido merece ser relido e trelido, merece pelo menos três leituras” (KRAUSE, 2002, p. 133). A primeira leitura seria a leitura ingênua, na qual o leitor é envolvido pela narrativa acreditando em tudo o que é ali relatado. Na segunda leitura, suspendemos a ingenuidade para adotar a atitude de desconfiança, assim como Tomé fez naquela manhã em que Cristo Ressuscitado apresentou-se aos seus apóstolos. “Só acredito vendo” é o lema da segunda leitura, quando é preciso desconfiar da realidade que se apresenta diante dos nossos olhos, ousando tocar o texto, sentindo o calor do sangue viscoso que jorra das suas chagas. Já na terceira leitura, nos lançamos na radicalidade de suspender tudo, seja nossa ingenuidade, seja nossa desconfiança. É o momento em que, de mãos atadas ao que lemos, nos permitimos empreitar a árdua missão de querer viver uma outra vida, passando a fazer parte do texto e transformando-o em parte de nossa própria experiência de existir.

A necessidade de viver outra vida, aquela que fuja do imediatismo dos dias regidos pelos ponteiros do relógio, pulsa em nosso peito desde os antigos tempos, quando ainda vivíamos sob o negrume das cavernas. Desde sempre, o homem sente necessidade de imaginar e sonhar e, por isso, cria a religião e as diversas manifestações artísticas, entre elas a literatura, formas tão vivas de ficcionalizar e, com isso, prolongar nossos dias.


Igor Gonçalves é escritor, contador de histórias e professor de Literatura, especialista em Formação de Leitores.













Referências

KRAUSE, G. B. Ler é preciso assim como viver é preciso. In: SERRA, E. D. Ler é preciso. São Paulo, Global Editora, 2002. (pp. 131-137)


Foto: Anne Lisboa/ arquivo pessoal

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