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Sobre ler e amar

por Igor Gonçalves


No 20° Congresso de Leitura do Brasil, realizado na Universidade Estadual de Campinas em 2016, a professora e escritora Nilma Lacerda salientou a necessidade de se educar por meio da literatura, no intuito de que o texto lido pudesse se tornar experiência. A literatura seria o meio pelo qual podemos ter a experiência do não vivido e, ao mesmo tempo, nos debruçarmos sobre nossa própria experiência humana.


Movidos pelo encantamento de Nilma Lacerda, podemos invadir as tardes ensolaradas de Recife em “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. No conto, a narradora, já adulta, divide conosco sua experiência de leitora na infância, no tempo em que sua maior ambição era ler as “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. Lembra extasiada:

“Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses”.

O grande entrave era o fato de, sendo muito pobre, não poder comprar o livro. Cedia às mais variadas formas de humilhação impostas pela filha do dono de livraria, que possuía o exemplar de Lobato.

“Mas que talento para a crueldade. (...) Comigo exerceu com calma e ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.”

A menina devoradora de livros ia todos os dias bater na porta da filha do dono de livraria na esperança de que o livro lhe fosse emprestado. A cada dia recebia uma resposta diferente: ou o livro estava emprestado com alguma colega, ou ele ainda não havia sido devolvido, ou que ela esteve com ele na tarde anterior, tendo a leitora de vir apenas na manhã seguinte.


Apesar de tudo, a ambiciosa leitora não desiste de conquistar seu objeto de desejo, insistindo diariamente na casa da sádica colega, que, mesmo não gostando de ler, privava a pequena narradora de se deliciar nas páginas do desejado livro. Durante muito tempo as visitas continuavam sem resposta, até que a mãe da filha do dono de livraria descobre toda a farsa da filha e a obriga a emprestar o livro. A ávida menina fica anestesiada com a notícia. Não sabe ao certo o que fazer, pois imaginava ser, mais uma vez, humilhada pela dona do livro:

“Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”

Para a narradora, o simples fato de ter o livro em mãos fazia com que a felicidade invadisse sua vida. A experiência adquirida pelos tantos livros lidos indicava que o desfilar entre as inúmeras páginas de Reinações de Narizinho acrescentaria mais azul aos seus dias, tão monótonos como as pontes de Recife, diariamente percorridas. O encontro com o livro esquenta o seu peito, deixa seu coração ficar pensativo. Isso porque a literatura tem a capacidade de nos tirar da mesmice dos nossos dias mais do que vistos e nos coloca a trilhar veredas que começam e terminam em nós mesmos.


Percebemos isso na conclusão do conto, quando a menina, deitada na rede com o livro ao colo, confessa enquanto se balança: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”. É esse o ápice da relação da leitura, quando o livro se torna aquilo que mais nos preenche, uma paixão arrebatadora. E pode não só nos preencher, mas nos educar esteticamente e humanamente.


Sendo vista como oportunidade para a formação estética, a leitura literária nunca poderá ser comparada a qualquer outro tipo de leitura, visto que só ela pode tratar artisticamente dos tantos dilemas que carregamos na existência humana. Por não usar a objetividade, a literatura lança mão da criatividade contida na língua para dar conta, mesmo que não seja função, das reflexões tão presentes em cada um de nós, como nossos medos e perdas, nossas alegrias e vitórias.


A literatura não faz parte das nossas obrigações com o viver e, por isso, costumamos destinar tão pouco tempo a ela. O escritor francês Daniel Pennac em seu livro “Como um Romance” nos provoca: “O tempo para ler é sempre um tempo roubado”. Roubado porque, presos ao pensamento pragmatista, enxergamos o ato de ler literatura como uma banalidade que toma o lugar das coisas ditas mais importantes. Nos roubará o tempo do jogo de futebol, o tempo do estudo para a prova de Matemática, o tempo para descansar da árdua semana de trabalho, o tempo dos exercícios físicos. Enfim, a literatura pode nos roubar de nós mesmos, o que é considerado perigoso aos olhos de muitos.


Pennac volta a nos provocar quando diz que não só o tempo para ler, mas também o tempo para amar deve ser roubado. Amar também não está no hall das coisas essenciais da vida. É preciso amar como quem lê, ler como quem ama, pois, como afirma o escritor, “o tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver”. É preciso, então, muita determinação e ousadia para deitar na rede e ler um livro, deitar na rede e sentir pulsar em nós o corpo do amante.

Igor Gonçalves é escritor, contador de histórias e professor de Literatura, especialista em Formação de Leitores.



Volta Redonda, RJ, Brasil

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