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Um dedo de prosa com a louca da casa

Por Antonella Catinari


Andam dizendo por aí que Shakespeare teria escritoReiLeardurante um confinamento causado pela peste bubônica no século XVII. Tal afirmativa serviria  para justificar que estamos vivenciando a melhor ocasião para executarmos nossasmasterpieces,afinal tempo e recolhimento são itens muito baratos no mercado atualmente. Não tive, sinceramente, vontade de checar a veracidade da informação. Não julgo que seja necessário. E por alguns motivos. Cito os que para mim são principais.

         Primeiro, acho de uma pretensão sem tamanho acreditar que, confinados, produziremos algo do nível de Shakespeare. Não é bem assim. Haja talento, estudo, sensibilidade, destreza com o idioma, entre outros atributos do mestre inglês. Se alguém apresentar algo desse portento, tenho certeza de que será porque já o vinha executando ou planejando antes da quarentena ser decretada.

Segundo, porque nosso contexto é completamente distinto daquele que circundava o dramaturgo. Shakespeare deve ter verdadeiramente ficado isolado, sem notícias, sem internet, TV, rádio, aplicativos e mídias sociais. Hoje somos avassalados por tudo isso e, mesmo em quarentena, nosso tempo às vezes escasseia. O excesso de informação a que somos submetidos nos tira a concentração, nos deixa ansiosos, até deprimidos, e, para sair desse quadro, tudo o que demande concentração, investigação de si mesmo, mergulho profundo no universo da criação nos parece árduo. Nada como uma “seriezinha” para assistir, uma comidinha para relaxar, ou sej a, o que vai nos movendo são esses prazeres conseguidos aqui e ali.

           Agora, um dos motivos que têm me deixado algumas noites sem dormir é o que se relaciona com a questão da imaginação propriamente dita, um termo ligado mais diretamente às artes visuais e à escrita. Corrijam-me se discordarem. Como não sou da área de música, não consigo conceber que exista essa ideia de se imaginar uma música como temos a de imaginar uma história. A imaginação, continuando, é apenas um dos componentes da criação, mais especificamente da criação artística e, refinando ainda mais, da literária.

Há vários elementos que se coadunam para que possamos criar, não discorrerei sobre todos, pois quem tem me beliscado para pensar sobre ela em tempos de pandemia e confinamento é a imaginação. Assim que essa conversa se estabeleceu dentro de mim, voltei correndo para prosear com a querida escritora espanhola, Rosa Montero, em seu livroA louca da casa,um dos meus preferidos e que cito sempre nessas brincadeiras de Facebook sobre leituras. Para quem quer entender os meandros da criação literária e a produção de sentidos por quem lê, tornando o leitor cocriador de quem escreve, é um romance delicioso, bem humorado e delicado. Meu exemplar está todo sublinhad o, comen tado e estrelado (uma vergonha!).

         Rosa Montero diz que, mais importante que o tilintar de palavras que se chocam no cérebro do escritor, é a imaginação, essas outras vidas ocultas e fantásticas que ele carrega consigo. Essa imaginação que se desdobra, que nos impulsiona a ir além de nós mesmos, faz com que, de acordo com a autora, o criador de narrativas se coloque mais próximo ao plano das crianças e dos lunáticos. O romancista tem o privilégio de seguir sendo um infante, de poder ser um louco, de manter contato com que ainda está informe.

E, ao comparar aquilo que diferencia a razão da imaginação, Montero diz que a primeira sempre se esforça para rechear de causas e efeitos todos os mistérios com os quais dá de cara; ao contrário da imaginação, que é pura desmesura e caos deslumbrante. E nos traz a imagem de Santa Teresa de Jesus, que chama a imaginação de “a louca da casa”. Ser um escritor, então, é ser alguém que convive de modo feliz com a louca do andar de cima.

         Essa convivência, no entanto, a meu ver, nem sempre é feliz e harmônica. Por medo de ser descoberta e enclausurada num feixe de palavras, de se pôr a revelar aquilo que lhe parece vergonhoso, a imaginação, volta e meia, se faz de rogada e ao romancista lhe cabe duelar com a folha de papel em branco.



         E o que tem isso a ver com a criação, a escrita e a imaginação em termos de pandemia? Ora, se a imaginação nos leva a outras vidas, outros tempos e lugares, é necessário poder alimentá-la com vida, com arte, com imagens e  sonhos. Hoje, sobretudo em nosso país, — onde vivemos ainda açodados por um despreparo governamental —, estamos experimentando uma realidade mundial que supera em níveis consideráveis a imaginação de todos, artistas ou não. Li em minha vida vários livros de ficção científica e assisti a muitos filmes desse gênero, mas não encontrei ali nad a t&atil de;o extraordinário como essa praga invisível que mata sem pudor qualquer pessoa que cruze com ela. Um inimigo que se modifica, que parece ter sido vencido, mas que retorna às vezes mais forte. Um mundo assustador do qual nos isolamos, mas que nos proporciona a falsa impressão de estarmos ligados aos demais, apesar de ser apenas virtualmente. Um mundo em que temos que produzir desesperadamente em meio ao inimaginável pandemônio.

          Como isso afeta a imaginação? Creio que em muitos aspectos, porém o que mais tem me despertado a curiosidade reflexiva é verificar que, em muitas pessoas, essa “desrealidade”, esse excesso assustador de fantasia incontrolável as embota, deixando pouco espaço para encontrar com sua louca da casa. Estamos aprisionados em meio a um pesadelo que nos parece real, confinados a uma pretensa realidade que supera a nossa imaginação. Como pode ela, então, a louca, se sobrepor ao que se vive? Tenho depoimentos de vários amigos e amigas artistas que relatam como está sendo difícil criar, manter uma rotina de trabalho criativo; que o que cons eguem &e acute; ler (nem sempre), reproduzir obras (sobretudo na música), ainda mais pressionados pelas inumeráveislivesa que são obrigados fazer para se sustentar ou se manter visível em meio ao caos.

          Sendo assim, penso que a consciência de que temos nossa “louca da casa” para alimentar — e que ela é , sim, maior que tudo isso que está aí do lado de fora—,  nos impõe um hábito para estes tempos de enclausuramento: devemos sempre chamar essa nossa inquilina para uma prosa acompanhada de chá no fim da tarde ou uma taça de vinho ao cair da noite, a fim de nos mantermos criativos e produzindo. Mas não precisamos ser o novo Shakespeare, combinado?


Antonella Catinari é professora, escritora e consultora pedagógica.

Crédito da imagem: https://blocodenotasaleatorias.wordpress.com/2014/07/24/vejo-mulheres-escrevendo-o-tempo-todo-5-mulheres-para-a-flip/


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